Por que Bolsonaro pode ser presidente?

agosto 22, 2017

por — Postado em Brasil, Partidos

Político carioca pode se tornar presidente devido as circunstâncias

Não sou o eleitor padrão do Bolsonaro, muito pelo contrário. Não gosto de sua postura autoritária, sua fala cheia de simbologia e suas aparições públicas como um novo “messias” (apesar de este também ser seu nome). No entanto não posso deixar de observar que ele pode vir a ser o novo presidente da República graças a um movimento que ressurge em todo mundo. 

Novo tempo

Com o advento das redes sociais vemos um esvaziamento do debate cunhado em ideias. Não podemos deixar de observar em publicações ou postagens o forte apelo de sentimentos que o brasileiro já tinha, mas que eram mascarados pela mídia, partidos e políticos. Até pouco tempo atrás a política de direita, partindo desde os liberais até os conservadores, era sufocada pelo fantasma da ditadura militar. 

A ditadura conhecida pela perseguição aos comunistas e socialistas, graças a influência norte-americana da época, fortaleceu o discurso da esquerda brasileira, tornando essa como vítima ideológica. Na tentativa de simplificar a narrativa se criou a premissa que a ditadura militar serviu como o advento do “imperialismo americano” ou “neoliberalismo autoritário”. 

Pipocaram partidos com vertente de esquerda, vindo desde o PSDB, passando pelo PMDB e culminando no PT e seus aliados satélites. A agenda da direita democrática ficava relegada aos poucos que debatiam política no sentido científico ou acadêmico. 

Aconteceu um vazio partidário, onde a direita se tornou sub-representada por pequenos partidos, como ficou provado em reportagem da Veja em 2011. Praticamente não se encontrava políticos com viés de direita, e os declarados, mascaravam com o objetivo de não se parecerem autoritários. Mas tudo mudou, e não foram os vídeos de Olavo de Carvalho e muito menos o surgimento do MBL, mas as circunstâncias. 

Resultado dos governos petistas

Nosso país estava em boa maré quando Lula foi eleito. Não por sua eleição, logicamente, mas graças ao audacioso Plano Real de 8 anos antes. Assim podíamos desfrutar de inflação controlada, uma gestão pública voltada para a diminuição do Estado, entre outros fatores que estavam surgindo para a reorganização do país. 

Mérito de Fernando Henrique? Também não. As privatizações foram necessárias pois o governo não tinha mais recursos, assim se evitou um rombo nas contas públicas. Não tínhamos alternativa, pois um Estado inchado e pesado iria consumir todos os recursos do PIB levando o Brasil a “falência”. 

Nesse período houve um distanciamento da população de baixa renda com as camadas com maior renda. Mesmo que o ganho real do brasileiro tenha sido ampliado, os programas sociais criados nos governos de FHC não foram suficientes para diminuir o abismo que separavam ricos de pobres. Foi então que o PT cresceu. 

Através de um discurso populista, Lula se aliou com setores da classe média – supostamente no limbo econômico e social – para ser levado ao poder. Em tese poderia ser uma guinada sem precedentes para a esquerda trabalhista européia, não fosse o viés marxista que o Partidos dos Trabalhadores ainda tem. Por meio de uma visão progressista implementaram políticas econômicas por meio de subsídios dando a falsa impressão que tudo estava indo bem. 

Com comida na mesa e dinheiro no bolso era difícil encontrar havia um brasileiro que se queixava de Lula e seu governo, pelo contrário. Este era elogiado e saiu de seu mandato com aprovação de quase 70%, mesmo com todos do alto escalão sendo investigados por esquemas de corrupção. 

Nos bastidores o PT inchou o governo a tal ponto de aparelhar dos os órgãos com militantes do partido. Inchou tanto que criou empresas estatais tão diversas que competem com diversas empresas privadas, fugindo até mesmo do preceito fundamental de haver empresas estatais em setores que não sejam atrativos para a iniciativa privada. 

Mas como havia dito o brasileiro em sua raiz não é de esquerda. Como mostrou pesquisas realizadas pelo Datafolha em 2013 e 2014 e também pela Fundação Perseu Abramo com a periferia da cidade de São Paulo, mesmo com praticamente nenhuma representação partidária que defendesse na integralidade tais valores. Isso criou um vácuo político, fazendo com que alguns discursos acabassem sintonizados com aquilo que a população tinha por anseio. 

Situação atual

Decorrente da atual situação de criminalidade crescente, descontentamento na classe política, corrupção endêmica, entre outros fatores o eleitor acaba por escolhendo aquelas pessoas que são contrárias a tudo isso. Bolsonaro ao menos coloca contrário a tudo isso. 

Dessa forma acaba arregimentando diversos apoiadores, principalmente nas redes sociais. Uma das páginas que tem mais compartilhamentos é do deputado, graças a sua estratégia de marketing focada em compartilhar vídeos onde ele aparece carregado pela multidão. 

Seus discursos baseados em “linha dura contra bandidos” e “conta o kit-gay” são usados para conquistar eleitores mais conservadores. Porém a grande maioria que segue Bolsonaro e suas ideias são jovens, que pretensamente estão descontentes com os rumos do país e sonham por soluções pragmáticas. No meio disso tudo vemos também que a maioria dos brasileiros prefere um Estado duro, onde as leis sejam cumpridas a risca. 

Dessa forma Bolsonaro consegue cooptar boa parte dos eleitores, sendo um retrato disso a pesquisa realizada pela De Rossi Media no início deste mês com residentes em Caxias do Sul. Ele ficou com mais de 22% das intenções de voto bem a frente de candidatos como João Doria e Lula. 

Público-alvo de Bolsonaro

Há pouco mais de um ano antes da realização das eleições podemos dizer que hoje o nome mais cotado para a presidência da República ainda é de Jair Bolsonaro. Apesar de não concordar com seu discurso, seu eleitorado está se tornando cada vez maior e suas taxas de rejeição estão diminuindo a cada pesquisa realizada. 

A última pesquisa de abrangência nacional realizada pela Paraná Pesquisas que tratou do tema de eleições foi em Maio deste ano. Nela o deputado carioca está com 16,1%, se tornando um possível candidato para segundo turno. 

No meio disso tudo existe ainda o chamado “voto útil” na intenção de barrar o avanço de Lula e seu partido. Este pode ser um indicador para levar ao posto máximo o deputado, ampliando esse percentual para algo em torno de 25%, analisando de forma totalmente empírica.

Por fim podemos salientar que outros candidatos – em sua maioria próximos a esquerda – não conseguem atingir esse público de Bolsonaro que almeja respostas duras e rápidas para os problemas nacionais. Em outras palavras, não se preocupam de fato com aspectos econômicos e muito menos com questões mais sociais (minorias, racismo, etc). Esperam do governante pulso firme e decisões enfáticas. 

Conclusão

Não posso de maneira categórica afirmar que Bolsonaro será presidente, isso ocorre pois até outubro de 2018 poderão ocorrer diversas situações. No entanto podemos dizer que os pretensos candidatos (e a lista será grande) não conseguem atingir o eleitorado do deputado. 

A centralidade de alguns postulantes ao cargo máximo ou seu discurso cunhado em bases focadas em defesa de questões sociais não atingem mais as pessoas que esperam um verdadeiro estadista. 

O esvaziamento do cenário político, a criação mítica da figura do “anti-político” e o anseio por “salvadores” podem levar a crer que tudo conspira a favor de Bolsonaro. Agora fica a pergunta: se eu estiver certo, o que virá depois?

Comentários

comentários